Armas de Brinquedo

“Bum… Matei você…”
Só me lembro da cara assustada do meu irmão quando apontei para ele a arma carregada de meu pai. Militar como era, não tinha só uma, mas várias armas e as guardava na parte de cima do armário. Não era difícil alcançá-las com a ajuda de uma cadeira. Eu deveria ter uns cinco anos, mas. nunca me esqueci disso. Aliás, nem meu irmão.

Naquela época os filmes de cowboy eram muito comuns na TV e,  portanto, na minha cabeça de criança era muito fácil manusear uma arma. O mais interessante ainda é que na cabeça infantil, a conseqüência é muito diferente  da realidade.

A TV mostra os desenhos animados como o do Gaguinho, por exemplo, que persegue o Pernalonga de arma em punho dando tiros, e que se atingem o coelho não lhe fazem tanto mal assim; só alguns buracos … depois de tanto tiro ele cai, mas em seguida está em pé novamente.
Em outra série, o trem passa por cima do Papa-léguas, mas em segundos ele se levanta e foge novamente. Isso, sem mencionar os milhares de desenhos mais novos, como por exemplo: Comandos em Ação e X Men.
Com tal percepção distorcida, a criança acha que o mesmo pode acontecer com ela ou com os outros. Que tipo de influência pode haver então no comportamento de crianças que assistem a coisas assim?
Em primeiro lugar existe a tendência de copiar o que se vê. O homem quer copiar e usar para si o que vê de mais moderno em, carros, computadores, etc … A mulher copia a moda que vê. Assim, recebemos a influência de inúmeras outras coisas que nem sequer nos damos conta. Se isso ocorre com os adultos, como será com a criança que tem como base de comportamento copiar os modelos que vê e que estão ao seu alcance? É essa a atitude da criança dos 2 aos 5 anos. A menina vê a mãe se arrumando e quer fazer igual. O menino vê o pai fazendo a barba e o imita. Como conseqüência vê os desenhos e filmes e quer fazer igual.
Lembro-me do irmão de um amigo que deveria ter uns 4 anos de idade que foi pego pela empregada no momento que atirava pela sacada um fio longo de barbante todo emendado por onde pretendia descer do 9º andar. A empregada logo gritou: – “Como você pode fazer isso? Não vê que vai morrer?” Ele falou: – “Não vou não! Eu vi no desenho e ninguém morreu.”
Essa distorção da realidade quase sempre é perigosa para as crianças nessa faixa de idade. São poucos os filmes que não apresentam também nenhuma morte ou violência com armas. A criança percebe que com uma delas se defende, mas também intimida. Sente-se superior, protegida e um ser onipotente. Mas, este estímulo à agressividade não é somente com armas de fogo como normalmente se pensa. Existem as máquinas de “games” com lutas de karatê e judô. Essa é a agressividade medida corpo a corpo, onde o corpo também é usado como arma.
Geralmente pensamos que é saudável colocar meninos (nessa faixa etária; entre 4 a 8 anos) no aprendizado de lutas marciais, etc … A compreensão de como usá-las e quando, tem íntima ligação com a maturidade de cada um. O que se sabe é que na grande maioria das vezes, a criança torna-se agressiva e menos prudente, apoiando-se na suposta onipotência da força. Com uma arma de brinquedo, nota-se também um estímulo à uma resposta igualmente agressiva. A metralhadora laser por exemplo, que dispara tiros coloridos, pode ser muito fascinante, mas pode provocar agressividade; pois quando a criança aponta uma arma para outra ela nunca diz: “olha que raios bonitos, eles são coloridos”, ela sempre diz: “Eu vou matar você”.
Há alguns anos, presenciei a seguinte cena com meus sobrinhos: Eles brincavam com esse tipo de metralhadora no local onde eu estava. De repente, pararam de atirar um no outro e passaram a disparar na direção de uma determinada janela onde outro garoto olhava. O menino pareceu sentir-se intimidado com aquilo e voltou pouco depois com o pai. O pai então levantou o braço e mostrou uma arma de verdade. Apontou na direção dos meninos enquanto seu filho ria da revanche. Os garotos saíram rápido do local e a brincadeira acabou. Esta é uma das possíveis conseqüências. A pessoa sente-se intimidada e devolve a agressão.
A arma não tem uma conotação amigável e conquistadora. Não foi feita para fazer amigos; só inimigos. Além disso, a arma em si não funciona sozinha. Precisa de um alvo, e os alvos que a criança vê são pessoas.
É importante lembrar a relação e o mecanismo que existe para a criança quanto aos brinquedos O bebê, por exemplo, interage de uma maneira específica com seu urso de pelúcia. Para ele, a variedade de cores e a textura já são importantes e suficientes. Os brinquedos com movimento também são fascinantes. Às vezes os toca, e às vezes só os observa atentamente. A relação é extremamente pessoal. Só existe ele e o brinquedo.
À medida que a criança vai crescendo e seu mundo se expandindo, ela começa também a interagir com outras pessoas. O brinquedo surge então como uma troca, como um elemento de ajuda nessa relação social. Sua utilização passa a ter um outro objetivo. Surgem então os jogos lúdicos onde participam dois ou mais coleguinhas. Nessa fase de crescimento a criança precisa de brinquedos que estimulem sua criatividade. São os blocos de construção, as peças que permitem encaixes, etc … Através deles, estimula-se a fantasia e a atividade motora coordenada; diferentemente da TV, onde só existe o comportamento passivo.
Esses tipos de jogos expandiram-se muito e receberam um impulso muito grande por parte dos pedagogos. Contudo, os colégios modernos não abdicaram dos brinquedos agressivos, como: luvas de boxe, espadas e revolveres.

Esses brinquedos, geralmente, ficam numa sala à parte, própria para as sessões de ludoterapia. Consegue-se avaliar o estado emocional da criança à medida que ela utiliza estes e outros brinquedos e como o faz.
Para os garotos que insistem, no entanto, em ter luvas de boxe ou espadas em casa, não precisam ser proibidos pelos pais. Cabe aos pais dirigir a atenção da criança para outros brinquedos, promovendo e estimulando alternativas para que eles possam escolher e, a partir daí, dar mais importância aos jogos lúdicos.
É bom lembrar que aquele que porta sua arma de brinquedo, muitas vezes é o que agride primeiro, pois se sente amparado no medo que pode gerar no outro. Conquistar amigos dessa maneira é sempre mais difícil.
O importante é desestimular o uso de tais brinquedos, uma vez que existem tantos outros com finalidade educativa, já que vivemos numa sociedade por si só tão agressiva.

Artigo de Marilena publicado na revista Casal Feliz – Ano X no.37

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