De mãe para filha (II)

Mâe e Filha

Mâe e Filha

Continuação De mãe para filha – Parte 1

O crescimento da liberdade pode causar certa rivalidade velada. A filha chega a momento de livre-escolhas, opções variadas tanto nos cursos como quanto a namorados, viagens, lazer, etc … e, justamente nessa fase, a mãe vivencia o inverso da situação. Sua liberdade de escolha já não é tão grande assim, sua permanência no trabalho já se tornou uma necessidade sem escolha e praticamente sem saída, pois para muitas é o meio de sobrevivência e manutenção da casa. Até a frustração de um relacionamento não muito satisfatório no casamento leva a um questionamento dessa falta de liberdade e uma inveja inconsciente.

É, portanto, uma fase que desperta em algumas mães esse tipo de sentimento e até intolerância em relação à filha. O sentimento do abandono e da inutilidade, por si só, promove um distanciamento de ambas as partes.

É uma fase também de projeção…

A filha agora pode fazer coisas que a mãe não pode mais e, portanto, a mãe projeta nela seu desejo e sua aspiração. A filha pode ir a determinados lugares que a mãe não vai mais, usar roupas que a mãe também não se sinta mais à vontade em usar e muitas vezes se frustra nessa iniciativa, quando percebe que ela não gosta de usar ou vestir-se como a mãe gostaria. Não gosta dos amigos que a mãe escolheria, não opta pelo curso ou a carreira que ela optaria, etc.
Perceber o outro e permitir que esse outro tenha liberdade, aceitando-o plenamente, é um passo difícil e complicado. É a evidência também da perda do controle, à medida que constata que o tempo das escolhas por ela já passou; o tempo em que comprava e escolhia as roupinhas, os passeios, os amiguinhos para brincar e até a escolinha.
Perceber e aceitar esse limite é fundamental para se estabelecer uma nova forma de relacionamento. Essa mudança, muitas vezes, não é facilmente aceita, passando a provocar conflitos e, como conseqüência, o distanciamento. O diálogo nessa fase é esquecido, como se fosse uma ferramenta inútil de ser usada. No entanto, principalmente nesse momento é necessário um entendimento para que se possa prosseguir sem quebrar a relação amistosa.
Cabe à mãe analisar seu relacionamento com sua filha e verificar se não está repetindo situações que viveu em sua própria adolescência.
O receio de conversar sobre sexo, por exemplo, com a idéia de que ela já sabe tudo, pode deixar uma lacuna cheia de distorções no conhecimento dessa filha. A mãe precisa saber qual o “tudo” que ela diz conhecer. Qual o tipo de informação que vem adquirindo? Quais as informações que estão erradas? Esse diálogo depende muito mais da própria mãe do que da filha. Se a mãe deseja abertura nesse assunto, precisa sentir-se à vontade para isso.
O que ocorre é que algumas mães ainda têm muita dificuldade em abordar esse tema por se sentirem constrangidas com sua própria sexualidade. Aqui observamos um ponto importante. Espera-se abertura e sinceridade da filha nesse assunto, mas não se admite abertura do lado da mãe.
É exigido sinceridade da filha, mas a mãe tem reservas quanto às perguntas que ela pode fazer. Quer ouvir, mas tem medo de confessar comportamentos ou dúvidas que teve em situações passadas que foram penosas para cobrar sinceridade absoluta nesse momento exige retorno e deve estar preparada para isso. Por causa desse medo, muitas mães deixam de abordar esse assunto, evitando justamente esse retorno que soa como perigoso. É onde têm de dar o primeiro passo, para também obterem algo em troca. A cobrança de sinceridade unilateral pode soar como uma total falta de cumplicidade e unicamente como uma exigência em respeito à sua autoridade.
O mesmo ocorre com a exigência em relação ao envolvimento na igreja e atividades da mesma. É uma fase onde o comportamento da mãe é colocado em xeque. Se ela é uma pessoa que não se envolve e apenas cobra, a filha também não se vê estimulada e muito menos vê coerência nessa cobrança. Notamos que, o comportamento é muito mais do que um exemplo; é um esteio, uma direção marcadamente decisiva nas atitudes dela.

Lembro-me de uma jovem que se ressentia da atitude da mãe, por achar que esta era indiferente e desinteressada com sua vida. Por outro lado, descobriu-se que a mãe ressentia-se por achar que a filha não se abria com ela, demonstrando falta de confiança e auto-suficiência em resolver suas próprias coisas. Cada uma possuía suas razões e ambas, de certa maneira, estavam certas, imaginando a razão da atitude da outra. Imaginar muitas vezes é o nosso maior erro. E maior ainda nossa responsabilidade, como mãe, em saber que isso é algo que pode acontecer e que depende de nós tomarmos a iniciativa de confrontar o real com o irreal (aquilo que imagino).
O tempo gasto nesse relacionamento é determinante para solidificar a confiança entre cada uma. Mas, aqui, tempo gasto não significa horas de conversa sobre temas banais, e sim a intimidade dessa conversa. A mãe que trabalha em casa pode não ter tempo disponível para separar um tempo e trocar informações efetivas. Passar horas circulando sobre o mesmo teto não significa estar junto, nem significa fazer companhia. A mensagem cifrada de “eu cuido da sua roupa, da sua comida, seu sustento e isso quer dizer que eu me preocupo com você” pode ser traduzida como: “você só se interessa em cuidar da casa, em manter suas coisas em ordem e não está preocupada comigo.”
Como essa relação pode ser melhorada? Uma pergunta que nos ajuda é: Como foi o meu relacionamento com a minha mãe? E a partir desta pergunta questionar:

  • Foi algo que eu gostaria que se repetisse com minha filha? (Uma boa ponte para fazermos é um julgamento adequado de nossa relação atual com nossa filha e pensarmos no tipo de relação que tivemos ou ainda temos com nossa mãe).
  • Quais os pontos que mais me atrapalharam?
  • Os que mais me prejudicaram?
  • Onde eu gostaria que tivesse sido diferente?
  • O que eu gostaria de mudar?
  • Do que eu mais gostava?
  • Esses pontos aparecem na minha relação atual com minha filha?

Esta avaliação é importante porque, em relação a filhos, sempre fazemos um dos dois movimentos: repetimos com eles o que recebemos ou restauramos, isto é, modificamos. Portanto, com nossa filha, corremos o risco de repetirmos o mesmo comportamento que nossa mãe teve conosco. Como certa mãe uma vez contou para mim: “Minha mãe era uma pessoa distante, que não costumava me ouvir ou me dar atenção. Só hoje consigo perceber que fiz o mesmo com minha filha. Ela já vive fora de casa e tenho o mesmo tipo de relacionamento com ela; como era entre mim e minha mãe. Estamos distantes e reconheço que raramente sentei-me ao seu lado para ouvi-Ia. Gostaria que tivesse sido diferente …”.

Por outro lado, já pude ouvir uma mãe que comentou: “Ajudo minhas duas filhas com os filhos delas, porque sei o quanto faz falta uma mãe próxima. A minha nunca me ajudou nos apertos. Achava que eu não poderia ‘encostar’ nela e que era tarefa minha manejar tudo, inclusive meus apertos, porque sair de casa e casar-me tinha sido escolha minha, e não dela. Hoje ajudo o mais que posso minhas filhas e somos muito amigas. Acho que isso fez uma grande diferença”.
Essa mãe estava certa. A atitude de restauração foi a alavanca para sustentar e solidificar a relação. Portanto, comparar nossas gerações pode nos ajudar grandemente e, o mais importante de tudo, é saber que, apesar dos erros, o momento da restauração sempre estará presente a tempo de modificar e consertar esses erros passados.

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6 opiniões sobre “De mãe para filha (II)

  1. Obs.: Publicamos aqui, pois o endereço de e-mail dado não é válido.
    a minha mãe não gosta de mim

  2. Marilena responde:
    Você não fala sua idade e nem os motivos que levam você a pensar dessa maneira.
    Por exemplo, na adolescência, principalmente, quando a mãe tenta limitar a liberdade da filha ou tentar controlar as decisões, etc… isso é visto como uma falta de afeto ou implicância….
    Não será por aí?

  3. parabens pelos artigos
    obrigada
    ajudam a nossa falta de informaçao
    continue ajudandoooo
    felicidades

  4. Muito bom este artigo! Gostei muito. É importante fazer a reciclagem sobre a relação que tivemos com nossa mãe.
    E as palavras “repetir ou restaurar os erros” me ajudou muito. Hoje mesmo vou conversar com minha filha de 17 anos baseada nessas palavras e reflexão. Obrigada. Parabéns pelo artigo e vocabulário simples e completo.

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