Mente em Fuga

O livro “Mundo em Fuga” falava da dificuldade e das desculpas do homem em se aproximar de Deus. Mas existe a “Mente em Fuga” que, ultimamente, povoa a nossa existência e nem percebemos.
À medida que nos entupimos de afazeres para preenchermos o nosso tempo com inúmeras atividades, algumas fúteis, outras não, estamos vivendo esse processo.

Funciona como uma compulsão mascarada. É como se eu não pudesse perder alguns minutos ou momentos na quietude do meu Eu, dos meus pensamentos, das minhas indagações ou questionamentos. Como se nada disso fosse útil.

Na perseguição em preencher os meus momentos, busco não só o lazer, mas o acúmulo das atividades do dia a dia. Nisto, eu repasso automaticamente tal comportamento para os filhos. Estes, também se entopem de compromissos e aprendem, assim, o método mais eficaz de terminar o dia, terminar o mês, terminar o ano e… terminar a vida. Seria essa uma busca sôfrega para a morte?

A pergunta: “O que você faz?” já implica em: Que atividades você faz fora de casa? Parece importante dizer que passamos o dia inteiro na correria e que, chegamos em casa e nem vimos o dia passar.

Mas corremos para quê? Por que será tão difícil sentir o dia passar, observar esse dia passar ou no mínimo acompanhar o dia passar?

A verdade é que não suportamos mais ver esse dia trazer suas inconstâncias, suas tragédias, suas inseguranças, suas ameaças e suas agressões. Nosso dia é agressivo, é ameaçador, é traiçoeiro. Conviver com tamanha ameaça nos deixa incapaz de acompanharmos o correr do dia.

Segurança era algo que tínhamos no passado, a certeza de que podíamos sair e voltar para casa à noite. De ver um filho sair à rua e voltar, etc…etc… Coisas do nosso passado, coisas de um século saudoso que ficou em nossa lembrança ou em nosso arquétipo.

Nossa segurança e o nosso cotidiano são estarrecedores, angustiantes e nos levam à uma ansiedade asfixiante e interminável. Nossa saída é tentar “eliminar” essa angústia. Tentar amenizá-la, ocupando nossa vivência com saídas ou  “fugas” que possam nos ajudar nesse método de sobrevivência. Aliás, o único método desse século. Pois é uma tentativa de esconder nossa grande dificuldade de percebermos realmente, a nossa limitação, a nossa precária mortalidade e a nossa finitude.

Nossa fuga nos leva a não deixar espaços para pensarmos sobre a nossa alternativa de vida e a nossa situação pós-morte.

Aqui se forma o paradoxo onde, ao mesmo tempo em que eu preciso que esse dia passe rapidamente, eu na verdade persigo, também, a morte rapidamente. Por isso nos assustamos quando dizemos: Mas, o natal já chegou de novo? Parece que foi ontem! Precisamos saber que esse “susto” é provocado por nós mesmos.

A famosa qualidade de vida e as diversas modalidades de lazer também se incorporam ao nosso sistema de fuga. Elas são atividades na nossa tentativa de obscurecermos a insegurança e a frustração que nós vivemos. Frustração do descontrole da violência, da agressão, da pobreza e da nossa finitude.

Parar, para muitos, significa tomar consciência desse Eu, dos desejos da insatisfação que nos persegue há muito e que ainda não resolvemos “tomar controle”.

Este medo, do parar por algum tempo, com certeza é ameaçador. Pois, ele pode nos trazer alguma crise interna.

Mas crise, significa mudança.

E o que será que nos acontecerá se pararmos por alguns momentos?

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