Pais que projetam seus sonhos nos filhos – Parte 2

… Continuação de Pais que projetam seus sonhos nos filhos – Parte 1

Podemos incluir aqui também, a escolha de amigos. Pais que tinham grande dificuldade em andar com turmas, tendo preferência por um ou dois amigos íntimos, não conseguem aceitar com facilidade essa turma numerosa do filho. A agitação em casa é maior quando esses amigos chegam, o barulho é atordoante, etc …

A tendência, então, dos pais é “escolher” determinados amigos, elogiando-os, e buscando defeitos nos demais. Criticam a bagunça da turma, e sempre que podem, enaltecem a importância de ter apenas um amigo íntimo, mas sempre presente e fiel. Falam da qualidade e da quantidade, sabendo perfeitamente como fortalecer e induzir o filho a ter determinada escolha. Minha vontade aqui, é que eles vivam aquilo que vivi, tratando-se também de uma projeção.

Como detectar esse mecanismo em nós? O primeiro movimento, é olharmos o tipo de vida que tivemos junto a nossos pais, verificando se nossas escolhas e projetos foram, realmente, eleitos por nós ou não. Podemos então ter uma visão mais ampla de como anda nosso comportamento em relação aos filhos.

No momento que você identifica essa projeção, fazendo um paralelo de sua vida com a do seu filho, fica mais fácil uma tentativa de mudança. Digo tentativa, porque a tendência natural não é a de mudar. Mas no momento que o problema é identificado, o propósito de uma mudança, começa a acontecer. Viver esse tipo de situação sem identificá-la é muito comum, mas a mudança só acontece se for possível tal reconhecimento. Admiti-la também é importante. Identificar, reconhecer e admitir, gera uma mudança. A cada vez que reconheço que estou induzindo meu filho a ter um determinado comportamento, ou a fazer uma escolha, eu também posso interromper minha atitude e tentar a mudança.

Talvez você esteja perguntando a você mesmo se, de fato, há tanta gravidade nessa situação e o que poderia acontecer com um filho que fosse conseqüência de tal atitude. Não é necessário dizer o quanto a frustração pode interferir na vida de um indivíduo, mas vamos focalizar a direção que ela pode tomar.

Uma das direções é quando surge em forma de agressividade contra os pais. O filho aceita essa escolha, e mais tarde se dá conta de que, de certa maneira, foi boicotado em seu próprio sonho. A frustração muitas vezes surge também em termos de distanciamento e indiferença. Assim como ele foi privado de seu projeto de vida ele também priva os pais de seu afeto e de sua companhia.
Sendo um comportamento que só aparece anos mais tarde (depois que esse filho já saiu da companhia dos pais), é difícil para eles descobrirem a causa dessa atitude. Quando se dão conta, entram num processo de culpa muito grande; e uma das situações mais difíceis de se lidar, com certeza, é a culpa. Na maioria das vezes, aquilo que gerou culpa, está irremediavelmente feito. As tentativas de conserto são simplesmente remendos que precisam ser tratados a fundo e com muito cuidado.
Existe um outro ponto muito importante, que é a segurança desse “filho-projeção-dos-pais”. Se ele foi receptáculo desses sonhos e se aceita essa escolha que não foi sua, como estar seguro nessa posição que ocupa hoje? Fica mais fácil quando pensamos na situação daquele pai advogado, que com entusiasmo mostrava o escritório ao filho. Havia entusiasmo porque aquela profissão tinha sido uma escolha genuína e livre. Passar aquele entusiasmo e segurança era fácil e sincero. Pensemos agora no filho, caso ele abraçasse a mesma carreira. Será que haveria o mesmo entusiasmo, segurança e firmeza no seu trabalho? Quando realmente fazemos aquilo de que gostamos, nos dedicamos totalmente e sem reservas.A insegurança então, é um traço característico desses filhos.

Usar por exemplo, um estilo de roupa de que gostamos, com que nos sentimos bem, com certeza nos coloca mais confortável. O desconforto está quando queremos usar algo que está na moda, mas que realmente não se encaixa conosco, e aí, nos sentimos desconfortáveis. Como disse uma adolescente certa ocasião: – “Minha mãe quer que eu ande sempre na moda. Não me sinto bem de saia curta demais e nem com roupa muito justa. Mas ela sempre insiste dizendo que tenho de aproveitar o corpo que tenho enquanto sou nova, porque depois vou ficar igual a ela; gorda, velha e ninguém me notará
mais… Essa mãe, que com a idade percebeu que já não chamava mais tanta atenção como antes, vê na filha, uma extensão de sua juventude, tentando colocar nela aquilo que já está impossível de ser vivido por ela mesma. Aquela filha sentia-se bem com roupas mais conservadoras, e estar recebendo essa projeção a fazia sentir-se insegura e até agredida. Por que seu gosto não poderia ser respeitado?

Outra adolescente reclamou de seu pai, dizendo que ele colocava defeitos nos seus namorados. Criticava quando o rapaz não tinha um físico atlético ou não ligava para esportes (como era seu pai). Criticava quando o rapaz tinha cabelo comprido, pois dizia que em sua época, os cabeludos eram “comunistas”. Criticava quando aparecia algum rapaz, filho de pais separados, pois ela deveria buscar uma família certinha, sem problemas e que com certeza, pelo exemplo em casa, mais cedo ou mais tarde, ele também a abandonaria. Na verdade, sonhos e modelos de seu pai, que certamente ele conseguiu realizar, mas que não necessariamente teria de exigir da filha.

O versículo (Efésios 6:4) que diz: “Pais, não provoqueis vossos filhos à ira …” significa também não castrá-los em seu talento natural, deixando de podar projetos e sonhos viáveis e lícitos, desses filhos.
Precisamos ter discernimento e sabedoria para identificar em nós mesmos essa atitude que pode transformar nossos filhos em adultos frustrados, inseguros e ressentidos conosco.

Artigo publicado na revista Casal Feliz (Ano XII – no. 45)

Uma opinião sobre “Pais que projetam seus sonhos nos filhos – Parte 2

  1. o texto sobre pais que projetam seus sonhos nos filhos parte 2 é seguramente um aviso muito bom pra mim que tenho uma filha de 1 ano e vinte dias. Não se projetar no filho é umtreino muito difícil. è preciso uma auto avaliação diária.

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