Nasci para contestar

Geralmente se ouve que a fase da adolescência é invariavelmente incontrolável, aborrecida e cheia de guerras. Aparentemente é uma relação só de atritos e sem saídas. A tônica dessa fase é sem dúvida a da rebeldia, da contestação. Mas a partir do momento que entendemos cada faceta dessa contestação, encontramos também uma saída. A contestação muitas vezes está embutida numa rebeldia e precisamos entender bem do que isso se trata.
Há duas espécies de rebeldia:

  • A normal que leva à maturidade, sendo construtiva, que ajuda o adolescente a sair “da casca do ovo” e a começar a usar suas próprias asas. Ela força a abertura de comunicação entre pais e filhos, dando-lhes a oportunidade de explorar problemas, entender sentimentos e crescer juntos.
  • A anormal, geralmente, resulta em desordem e destruição. Fecha as vias de comunicação e em vez de um comportamento ocasional, torna-se estabelecido e específico. É sempre a respeito do carro, namoro, dinheiro, amigos, fé, sexo, música, dança, etc… Uma guerra fria se estabelece na família e os pais não têm coragem de mencionar essas áreas de conflito. Ela, na verdade, desvia o adolescente da vida, levando-o a algum atalho estreito.

Há várias atitudes que os pais podem ter, frente à uma rebeldia normal:

  1. Ajudá-lo no amadurecimento, enquanto ele passa pela crise, e não retirá-lo da crise para poupá-lo. A maioria dos adolescentes não cria problemas de família; revela-os.
  2. Uma atitude que proporcione aos filhos segurança com seus pais. O adolescente pode rebelar-se contra as opiniões dos pais, mas nunca deve rebelar-se contra suas atitudes. Como falou um adolescente: “Eu discordo muito dos meus pais, mas gosto da maneira como eles abordam nossas discordâncias. Eles discordam, mas são coerentes“.

Já é meio caminho andado, concordam?

Uma raiz comum de contestação é o medo.

Um psiquiatra disse uma vez: “Violência é temor exteriorizado. O jovem usa a rebeldia para encobrir seus verdadeiros sentimentos”. Esse medo pode vir de diferentes situações. Uma delas é a pressão de grupos. Muitas vezes o adolescente começa a trazer idéias novas e revolucionárias, não compatíveis com aquela que foi ensinada pelos pais, e eles se perguntam: “Onde erramos? Por que, depois de tanto ensinamento, essas idéias opostas começam a aparecer? Isso faz sentido?”.

Devemos lembrar que uma das características da adolescência é a formação de identidade e é necessário que eles busquem alguém ou um grupo para poderem se identificar, construindo essa identidade que vai se formando e se compondo aos poucos. No entanto, neste processo, aparecem elementos diversos e estranhos àqueles que sempre foram ensinados dentro da família e incorporados como verdades absolutas.
O grupo passa a estabelecer determinados padrões que devem ser seguidos e o adolescente, levado pelo que está “na onda”, acaba aceitando normas e absolutos que às vezes nem ele mesmo está tão de acordo assim.

Por não querer “ficar de fora”, e principalmente por não querer parecer diferente, muitos são forçados a apresentar comportamentos específicos, sendo envolvidos gradativamente, mas de modo profundo.

Em termos de grupo, será que seu filho pensa e age como os outros do grupo?

Ele é assim mesmo ou tem medo de ser rejeitado?

Numa pesquisa entre adolescentes sobre bebida, um deles comentou: “O grupo todo bebe e a gente não vai ficar de fora…”

Se eventualmente ele tem a coragem de se expressar, com certeza vai encontrar alguém dentro do próprio grupo que também pense igual. Muitos pais querem que eles contestem o grupo dizendo: “Eu não bebo e pronto!” Isso é uma atitude que nós não podemos exigir ainda. Muitos têm uma personalidade forte e enfrentam o grupo, mas isso não é comum.

Por que isso? Porque essa é uma outra característica da adolescência: é um tempo de formação de identidade. Até mesmo o adulto sofre pressão daquilo que a T.V. impõe, do que a moda impõe, etc…

Nessa fase, podemos mostrar que ser sincero é uma grande saída e dar o máximo de apoio nesse sentido.

É muito provável que ele encontre uma pessoa como ele, mas que talvez tenha dificuldade de mostrar sua diferença.

O sentimento dos pais é de pânico e ansiedade. A tendência é “cortar” o envolvimento com o grupo, querendo preservar assim o contato de tantas influências nocivas. Não podemos obrigá-los a isso, mas podemos questioná-los:

  • “Será que esse grupo serve para você?”
  • “Um grupo que o obriga a fingir um comportamento, onde você tem medo de ser você mesmo e dizer o que pensa? Onde está a liberdade que vocês tanto falam?”

Outros artigos/post sobre esta fase da adolescência (<=link).

Artigo publicado originalmente no site PapoNosso : Nasci para contestar

7 opiniões sobre “Nasci para contestar

  1. preciso de apoio;;;;;;;
    sou uma adulta….
    perdi minha adolesceencia…
    nunca namorei…
    sempre estudei muito……..
    tenho dois filhos( 1 com QI acima da média e 1 autista)
    estou sofrendo……
    estou cansada de ser eu….

  2. Marilena responde:
    Apesar de tudo, pense na força que você precisa ter por causa de seus filhos.
    Se você perdeu sua adolescência, sem dúvida irá querer uma adolescência boa para seus filhos e para isso eles precisam de você desde agora, na infância.

    De qualquer modo, você deve ser uma pessoa muito forte (mesmo sem saber que é, como diz), pois chegou até aqui tendo 2 filhos.
    Pense na possibilidade de ter ajuda mais alguém como uma terapia , por exemplo.
    Apenas nessa fase de mais desânimo.

    Confie um pouco mais na sua estrutura emocional e pense em tudo o que você conseguiu até aqui; até hoje.
    Seu passado irá lhe lembrar das vitórias e dos obstáculos que você já ultrapassou.

  3. 02/10/2011 Comentário recebido:
    Obs.: Publicamos aqui, pois o e-mail enviado retornou por erro de endereço.
    Sou adolescente. Não tenho muitos amigos, mas gostaria de ter. Sou muito tímido e as vezes fico com raiva de ser eu mesmo. Sou o chamado “nerd” da turma e vivem mexendo comigo. Sou muito triste e isolado de turmas. Nunca namorei até hoje e gostaria de ter uma namorada, como todo adolescente tem, mas por eu ser muito feio (como todos dizem). ninguém quer namorar comigo e esse é um dos motivos de eu ser muito infeliz.

    Marilena responde
    Você não é o único que passa por situações constrangedoras. Muitos passam e vivem situações como esta que você está passando e nem comentam com ninguém.
    É bom lembrar, que seu corpo ainda está em transformação e que você, seguramente, NÃO ficará fisicamente do mesmo jeito que está hoje. Ninguém fica do mesmo jeito aos 20 anos como era na adolescência.
    Certo adolescente, ficava indignado por ser muito gordo e nenhuma garota queria ficar com ele. Ele sofria demais por isso passou uns bons anos tentando se excluir das pessoas e do grupo. Apesar de tentar perder peso, isso era quase impossível; pelo menos para ele. No entanto, como estava crescendo e o metabolismo em mutação, alguns anos depois, com pouco mais de 20 anos, conseguiu perder peso. Quando isso aconteceu, as garotas que nem conversavam com ele, começaram a se aproximar. Primeiro foi uma depois mais uma e assim por diante. Era como se elas tivessem “descoberto” a presença dele. Elas comentavam entre si: Como é que nunca percebemos ele ? Resumindo… Logo depois já estava namorando uma graça de menina e acabou se casando com ela.
    Outra história de outro amigo que tinha apelido de “O Feio”, mas era muito simpático e inteligente. Minha amiga, um dia, comentou comigo que ele a tinha pedido em namoro. Contou essa estória rindo muito e dizendo:
    Imagine! Logo quem… Ela era muito bonita. Bonita mesmo! No entanto, depois de algum tempo, levei o maior susto vendo os dois namorando. Não entendi nada! Mas as meninas do grupo diziam: mas ele até que é bem simpático; inteligente… Bem, o namoro durou bastante tempo. Anos mais tarde, eu o encontrei já casado com outra, filhos, etc…

    Hoje, quando veja alguma história parecida com a sua, me recordo dessas histórias de meus amigos.

    Lembra da estória do “Patinho Feio”?

    No entando, há coisas que você pode fazer para se ajudar. Uma terapia de apoio, para trabalhar sua autoestima poderá ser bastante útil. Pense sobre isso.

    Procure, também, outros e outras que sejam tão “nerds” quanto acham que você é. Há milhares, atualmente.

    Faça uma lista de suas qualidades. Se você não achar nenhuma, pergunte aos seus familiares. pergunte para seu pai, mãe, irmão, empregada, etc…. Não existe ninguém nesse mundo que não tenha nenhuma qualidade. Alguma você tem, pode ter certeza!

    Sempre que você se sentir triste, leia as histórias acima. São verídicas, ninguém me contou e sou testemunha delas. Mesmo que você seja tão feio como meu amigo “O Feio”, sempre haverá alguém para você!

    Guarde meu e-mail e um dia você vai me contar que está namorando. Vou gostar de saber.

  4. 20/01/2012 Comentário recebido
    Tenho 12 anos. Acho que já sou uma pré adolescente, mas minha mãe me trata como se eu tivesse 3 anos de idade. Queria saber como digo a ela que estou mudando?

    Marilena responde:
    É importante que você diga a ela, exatamente, isso que escreveu.

    Peça a ela para comprar um livro recomendado, especifico para sua idade (link):
    COMPREENDENDO SEU FILHO DE 12-14 ANOS-A ADOLESC.

    É importante, no entanto, que você seja bem transparente com ela, dizendo como você se sente.

    Toda mudança acontece a partir de conversas assim.

    Faça isso para se ajudar!

  5. 17/10/2011 Comentário recebido:
    Olá, meu nome é C. Eu sou adolecente de 16 anos eu brigo muito com meus pais, mas eu sempre me pergunto o que eu fiz de errado, pois quando eu era criança eu respeitava muito os meus pais. Mas, agora eu não respeito mais eles. Minha vida está de cabeça pro ar com a: escola, emprego, amigos, namorado e família.

    Marilena responde:
    Essa aparente “falta de respeito”, muitas vezes, é confundida com a dúvida que você tem hoje se, de fato, eles tem razão ou não naquilo que eles falam. No entanto, agressão verbal a eles, de fato, constitui falta de respeito explícita.

    Tente negociar as coisas com eles. Negociar significa “chegar num acordo com eles”.

    Essa é uma fase de transição e você pode ter certeza de que não ficará assim pra sempre (apesar da sensação ser esta).

    Saiba, no entanto, que o propósito dos pais não é de “implicar” com você para torná-la infeliz. Geralmente, é super proteção, super cuidado e pura preocupação.
    Dê um desconto nisso tudo….

  6. 09/02/2011 Comentário recebido:
    Preciso de ajuda!!! Tenho um filho de 11 anos que desde que entrou no ensino preparatório (este ano lectivo) alterou muito o seu comportamento, principalmente na escola. Tem comportamentos que considero graves e que me preocupam tais como envolver-se em cenas de bullying (sendo um dos principais participantes), mente muito, dizendo por exemplo que faz os trabalhos de casa e não faz, o dinheiro que lhe dou para comprar as senhas de almoço gasta-o em brinquedos e doces, é mal educado e por vezes agressivo com professores, auxiliares e colegas e descobri à dias que tirou dinheiro da carteira de uma familiar nossa para comprar um jogo para a PSP. Em casa o comportamento dele não é assim. Por vezes é um pouco agressivo a falar mas nada de especial, é carinhoso, tem a nossa atenção, brinquedos também tem muitos, incluindo os tais jogos para a PSP, não qlhe falta comida, roupa, enfim não lhe falta nada do que considero essencial. Para tentar mudar-lhe o comportamento tenho várias conversas com ele, ele até reconhece que não faz bem, é castigado e até umas palmadas lhe comecei a dar uma vez que nada do que tenho feito surte efeito, mas nada tem resultado. Precisava de um conselho de como agir com ele, pois ando triste, desanimada, desesperada, não sei mais o que fazer.

    Marilena responde:
    Comportamentos assim precisam de ajuda terapêutica e é preciso que você já procure uma psicóloga infantil. Procure na escola indicação de alguém.

  7. 18/11/2011 Comentário recebido:
    Preciso de ajuda com um primo… Na nossa familia nunca tivemos caso de ninguém se envolvendo com bandido ou gangue. Bom, atualmente, esse meu primo está se envolvendo com uma gangue e minha tia já fez de tudo pra tirar ele desses amigos. Conversou com ele, foi ao colégio, mas nada está adiantando. Ele tem 15 anos sempre foi muito inteligente e estudioso agora ele esta pendurado em 11 matérias. Só quer saber desses amigos. Tá mentindo e fazendo coisas erradas. Eu tentei conversar com ele mas ele falou muito pouco, dei conselhos sobre as coisas certas e erradas mas nessa semana minha tia pegou ele mentindo, ele disse que ia a aula de reforço acabou discutindo com minha tia porque a aula começava as 16h e ele queria sair de casa as 13h. Minha tia não deu o dinheiro pra ele pegar o onibus, ele foi a pé e ela seguiu ele e descobriu q ele tava com uma lata de Spray escondida no mato e que continuava andando com essa tal gangue. Minha tia ta muito mal e ninguem sabe o q fazer pra ajudar. Por favor me diga como agir, qual a melhor forma pra tirar ele disso.

    Marilena responde:
    Andar com gangues merece denúncia e tudo depende do desejo de sua tia. Adolescentes, muitas vezes, precisam de um “susto” para entendam a gravidade do que estão fazendo ou continuarão vivendo na ilusão de que tudo é fácil e sem consequências.
    No entanto, ela poderá, também, procurar em hospitais atendimento psicológico para ela e para o fiho. Ela poderá ir sozinha, primeiraente, e depois ele será chamado.
    Há, no entanto, necessidade por parte dela de restringir dinheiro e liberdade, cortando inclusive as facilidades e benefícios que porventura ele tenha dentro de casa.
    Verifique essas possibilidades.

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