Vendedores de Ilusão

Com a sofreguidão pela busca da “boa forma”, deixamos passar detalhes importantes que as reportagens nos trazem: a idade daqueles que são estampados nas capas de revistas. Na grande ilusão de tentarmos nos igualar àqueles que lá estão, nem sequer percebemos o quão irônico é esse viés.
Manter boa forma aos 26, 30 anos, na verdade, não se trata de uma tarefa tão difícil. Por que não apresentam pessoas acima de 70 anos, que mantêm, apesar de tudo, uma forma saudável e jovial? Na verdade, existe um certo objetivo para isso. Manter um nível adequado de frustração que, por mais estranho que nos pareça, é aconselhável no mundo moderno de hoje.

É, justamente, essa frustração que movimenta o mercado da estética, da cosmetologia e da moda.

Trata-se de uma idéia sutil que aos poucos permeia nossa mente acomodada e, temporariamente, satisfeita. Mas, à medida, que nos inteiramos dessa plástica aparente, dá-se início a essa frustração.

É difícil aceitarmos nosso próprio corpo. Surge a comparação com os modelos expostos, que estão longe das imperfeições e dos “defeitos”. E sem nos darmos conta do importante detalhe da diferença de idade, iniciamos nossa busca pelo belo e pelo perfeito como se o TUDO nosso fosse inadequado e ineficaz.

Nossa dieta é ineficaz, nossa ginástica é ineficaz, nosso médico é ineficaz e, portanto, é hora de grandes mudanças. O TUDO da outra, ou do outro, é o que realmente traz resultados. Portanto, chega o momento de uma troca radical. Nos preocuparmos mais com o NOSSO peso ideal e não mais com o peso adequado e saudável a nossa idade.

Assim como, nosso corte de cabelo, o tipo de roupa que nos favorece. O que manda e comanda, é o que é vendido como o ideal, e não como o real. Tentar aparentar 30 anos, quando se tem 60, mesmo com dietas, aumento de horas na academia, nunca será real.

Essa busca absurda, desumana, abala nossa autoestima, frequentemente, fragilizada pelo que eu preciso ser e não sou; Preciso ter e não tenho, etc…, etc…

Esta busca interfere, também, com nossas “projeções”. Comumente bombardeadas com informações infinitas sobre esse tema. Todos os meus sentidos são levados nessa única direção. Finalmente, entrego-me a estas pressões e admito: Aquele é meu ideal.

Neste momento, há uma conexão em nossa mente do ideal e da felicidade. Ou seja, felicidade, só com o ideal conseguido. Sem isto, o que sobra será sinônimo de frustração e infelicidade.

Como vimos, a frustração é a mola mestra dessa dinâmica. O quadro já está formado. O ciclo que se processa, a partir daí, é apenas uma questão de tempo, nada mais.

Difícil abstrair-se dessa “modernidade” tirana que, conscientemente, manipula nosso inconsciente. Difícil manter a neutralidade e a lucidez, tentar conseguir o equilíbrio no eixo: ouvir tudo, ler tudo, ver de tudo e reter o que é bom.
Mais difícil ainda, é enxugar os exageros daquilo que nos é vendido, com pura ilusão…

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