Ciladas

Um caso difícil: uma pessoa casada com alcoólatra ou com marido agressor, vivendo vários anos cuidando e tentando minimizar as sequelas dessa condição, consegue desvencilhar-se desse parceiro, pondo fim a essa relação.

Solução que, muitas vezes, trata-se de um escape à sobrevivência dessa pessoa que se encontra no extremo da exaustão emocional.

Passam-se os anos e esta mesma pessoa encontra outro parceiro que por “coincidência” apresenta o mesmo quadro de alcoolismo ou o mesmo caráter agressivo.

Outro caso: depois de uma longa relação com homem infiel, vivendo uma parceria de insegurança e desvalorização, e rompendo esse relacionamento, há o fascínio novamente por outro parceiro igualmente infiel, etc…. E a história se repete.

Chegamos, então, nas ciladas da vida onde, por estranho que pareça, a situação que deveria ser evitada é “perseguida”.

Encontramos aqui o quadro: busca de segurança X medo do desconhecido.

Mesmo vivendo uma situação de desconforto e de insegurança, esta é uma situação conhecida. Nessa situação, a pessoa conhece os limites, as dificuldades e sabe como equilibrar-se. Acostuma-se com a dificuldade. É o pássaro na gaiola que desconhece o outro lado que é a liberdade e quando solto, volta para a gaiola.

Passar pelo mesmo caminho, ainda que mais perigoso, mais longo, mais difícil, ainda é mais seguro do que se aventurar no desconhecido. O desconhecido traz insegurança, conflitos e mesmo sendo mais fácil é ameaçador.

Notamos, então, que o novo não é tão amigável como nos parece. Todo o NOVO já traz a conotação da mudança, da insegurança, do desequilíbrio.

Portanto, aquele que tem certa dificuldade em aventurar-se no novo, também tem mais tendência a repetir suas histórias, suas escolhas, suas decisões.

As repetições para essas pessoas, são repetições que sugerem: “Agora vai ser diferente. Dessa vez vou conseguir o que não consegui da vez anterior…”

Essa é a matriz psíquica que determina os atos repetitivos de inúmeras pessoas ao nosso redor. São os “fracassos” repetidos ou as tentativas frustradas, surgindo com uma roupagem supostamente diferenciada. Nossa mente precisa ficar alerta contra essas ciladas.

Artigo publicado originalmente no site PapoNosso .

5 opiniões sobre “Ciladas

  1. 22/07/2010 Comentário recebido:
    Obs.: Estamos publicando aqui, pois a resposta enviada por e-mail retornou por erro de endereço.
    Muito maravilhoso esse paralelo. A vida tem sido complicada, desde a adolescência…. Sempre fui muito carente; sonhava com pai que me abraçasse, beijasse, confortasse, principalmente… (apesar de, os meus pais, serem pessoas prestativas, nunca me deixaram faltar nada, em relação a alimentação, moradia, estudo). Aos x anos me casei, apaixonada, com uma pessoa quase trinta anos mais velha…. No começo foi tudo maravilha, mas agora n anos depois, parece que vejo a vida triste, insatisfeita, culpando-o sempre pelas minhas insatisfações, mas admitindo sempre coisas que eu sempre abonimava nos tempos de solteira. Por exemplo: meu esposo era bem empregado, importante, cheio de mulheres ao seu redor, cobiçando-o; creio que nunca me traiu, mas me menospresava um pouco (infernizando minha profissão; dizendo que eu jamais conseguiria ganhar dinheiro, menosprezando minha familia, etc.), hoje, ele está desempregado, tem distimia, vive rodeando os acasos e já perdemos tudo pela inércia dele; temos filhos pequenos, estamos vivendo precariamente, em relação a vida luxuosa que tinhamos, mas não sei mais o que fazer… todos dizem que devo dar um basta; mas acho que o amo, que não seria justo deixá-lo agora, mas será que não estou numa dessas ciladas da vida, pois meu pai era mais ou menos assim…. Quero muito ajuda, algo que realmente mude minha vida, pois há tempos, não sei o que é ser normal…… Não quero ficar velhinha e pensar que eu poderia ter sido feliz.

    Marilena responde:
    Se ele tem distimia, saiba que isso (caso nao seja tratado) pode levar a pessoa a uma inércia, um abatimento e, muitas vezes, à uma depressão. Antes que isso aconteça, tente levá-lo a um psiquiatra para que possa medicá-lo adequadamente.

    É muito provável que essa distimia o esteja impedindo de tomar inicativas, etc….
    Veja isso, primeiro, pois sua ajuda é importante nesse momento. Se hoje falta iniciativa à ele, e isso existe em você, ajude-o nesse momento.
    Deixá-lo agora, não parece o mais adequado.
    Se ele já apresenta esse quadro há tempos, e se você leu o artigo no blog sobre “Distimia” sabe que pessoas assim, acham tudo sempre muto ruim, são críticos e isso, também, pode estar relacionado ao fato de menosprezar seu trabalho, você, etc….

    Se você, no entanto, pensar em buscar ajuda terapeutica e se você vive em alguma cidade grande, com faculdade de Psicologia, saiba que existe atendimento (praticamente gratuito) nesses locais e basta apenas fazer a inscrição e esperar ser chamada.
    Talvez isso interesse a você.

  2. Obs.: Estamos publicando aqui, pois a resposta enviada por e-mail retornou por erro de endereço.
    Que bom que vc respondeu. O que acontece é que eu ando muito fragilizada, também. Talvez, mais do que ele. Temos duas crianças pequenas e isso é um peso enorme para ambos. Ele vem de familia rica, não conheceu o que é necessidade na infância, eu sim; mas sei que devo ser justa nesse momento. O que acontece é que eu também estou fragilizada. Já larguei minha famlia que me amparava; meus irmãos estão todos bem na vida, e eu passando por todo tipo de necessidade com meus filhos por ter que sempre estar tomando iniciativa. Ele já foi ao psiquiatra mas começou o tratamento e desitiu, parou. agora ele não quer ir. Estou exausta…

  3. Marilena responde:
    Diga que se ele não for, você irá buscar ajuda porque já está cansada demais e dois em casa de “mal com a vida” não dá nem para cuidar dos filhos. Nessa hora, um precisa ajudar o outro.

    Talvez você possa buscar ajuda somente para você. Veja se onde você mora, existe alguma faculdade de Psicologia. Geralmente, eles têm atendimento aberto ao público, com custo quase zero. Basta você fazer sua inscrição e esperar ser chamada. Se existe algum hospital, há também atendimento aberto com igual procedimento. Veja se consegue…..

  4. 04/08/2012 Recebido de J.C.
    Observação: A resposta enviada por e-mail retornou por erro no endereço fornecido. Para preservar a privacidade, omitimos quase a totalidade do comentário.

    Marilena….essa sou eu…alguns anos depois….

    Marilena responde:
    Parece que você sabe exatamente onde está errando.
    A única coisa que falta é ficar atenta pra não repetir o que você sabe exatamente o que afasta seu filho de você. Ele está entrando na adolescência e é hora de mudar sua abordagem com ele.

    Leia (links), isto ajudará você.
    Lidando com Adolescente
    Depoimento de uma Mãe.

    Recomendo a leitura dos livros da Coleção Imago (<=link), separada por idade. É muito útil e ajudará você. Não existe, absolutamente, nenhum vínculo ou acordo financeiro ou comercial na indicação da leitura recomendada. Ela é feita unicamente por tratar-se de uma literatura séria e necessária ao melhor entendimento de pais e filhos.

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